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A Bolha das Bolhas

A Bolha das Bolhas

Você sabe o que é uma bolha? Talvez não, mas certamente já ouviu falar de alguma (ou muitas) delas.

Algumas das bolhas mais famosas são também as mais recentes, como a bolha da internet (dot com bubble) de 2001 e a bolha do mercado imobiliário nos EUA em 2007 (housing market bubble). Nestes eventos, trilhões de dólares são perdidos em um curto espaço de tempo, levando à ruína milhões de investidores no mundo todo.

Até hoje, a pior bolha que se tem registro histórico foi a bolha do mercado de ações nos EUA em 1929, que acabou culminando na grande depressão americana e durou aproximadamente 12 anos, tendo apenas durante os anos de 1929 a 1932, derrubado o PIB mundial em 15%.

Fila de trabalhadores a procura de emprego nos EUA em 1930, pouco após o estouro da bolha de 1929.

 

O que é uma bolha?

De maneira bastante objetiva, uma bolha nada mais é que uma situação na qual um ativo se desvia (sempre pra cima) fortemente do seu valor normal no mercado.

Neste caso, acaba ocorrendo uma grande valorização do ativo em um curto espaço de tempo, que acaba “inflando” o seu preço (por isso o nome "bolha") até que o mercado perceba que a situação é insustentável e a bolha finalmente estoure.

O estouro da bolha marca o fim do rally de preços do ativo em questão, mas seus efeitos colaterais geralmente se arrastam por mais tempo, a depender da classe do ativo e do quão inflado chegou o seu preço, podendo até mesmo prejudicar outras pessoas que nada tinham a ver com a questão, assim como economias de países inteiros e finalmente o mundo todo (como ocorreu em 1929 e 2007).

 

A bolha das tulipas

Uma das primeiras bolhas que se tem registro histórico é a Bolha das Tulipas, ou Tulipomania, como ficou conhecida.

A bolha das tulipas começou em 1593, quando Carolus Clusius trouxe à Holanda bulbos de tulipas vindos da Constantinopla. Por serem raras, essas tulipas chamaram a atenção da população e se tornaram símbolo de riqueza na Holanda.

Quanto mais rara, mais cara a tulipa era avaliada. No início do século XVII, especuladores compravam os bulbos da planta e os revendiam a preços astronômicos para a época. Ocorreram meses em que o valor das tulipas chegou a multiplicar por 20, um claro indicativo de bolha, que infelizmente naquela época ainda não era tão difundido.

                        Gráfico de valorização dos bulbos de Tulipas em 1636.

Nesta época, os bulbos de tulipas eram trocados por bens de grande valor real, como imóveis localizados em regiões nobres da capital da Holanda e em 1636 chegaram a ser negociados na Bolsa de Valores de Amsterdam. Isto mesmo, bulbos de tulipas eram negociados na bolsa de Amsterdam em 1636.

Até mesmo contratos futuros de tulipas foram criados para que o comprador se comprometesse a adquirir um bulbo no final da temporada de floração da planta.

Porém, chegado o inverno de 1636-1637, quando um comprador de Haarlem não conseguiu honrar com seu contrato de compra das tulipas, tal fato acabou estourando a bolha e muitos compradores que tinham trocado imóveis valiosos pelas tulipas, de um dia para outro, possuíam apenas uma planta sem qualquer valor de mercado.

Tal fato fez com que um contrato futuro após o outro também deixasse de ser honrado, o que trouxe grande pânico na Bolsa de Amsterdam. Era o fim da Bolha das Tulipas.

Na época, a crise foi tão grande que o governo Holandês chegou a intervir e oferecer 10% do valor original de cada um dos contratos emitidos para honrá-los na bolsa, no entanto, a medida não surtiu efeito e só fez o mercado cair ainda mais.

A crise causada pela Bolha das Tulipas acabou gerando uma grande depressão econômica que demorou anos para ser superada, efeito clássico de grandes bolhas econômicas.

 

A Bolha das Bolhas

Há outra bolha sendo inflada neste exato momento. Uma bolha maior do que qualquer outra que já existiu, inclusive maior que a catalizadora da Grande Depressão de 1929. É a Bolha das Bolhas.

A Bolha das Bolhas vem sendo inflada pelos Bancos Centrais mundiais (principalmente o FED, Banco Central dos EUA) desde a crise de 2007, causada pela bolha do mercado imobiliário norte americano.

Antes de começarmos a falar sobre a Bolha das Bolhas, responda a seguinte pergunta: qual é a maneira mais utilizada pelos bancos centrais para estímulo da atividade econômica e aumento da circulação de dinheiro?

Resposta: diminuição da taxa de juros. Por quê? Ora, porque com a taxa de juros mais baixa, o crédito fica mais barato e com o crédito mais barato, é mais fácil e mais atrativo tomarmos empréstimos para realizar investimentos ou para financiar bens de grande valor.

Durante os últimos anos, os bancos centrais vêm diminuindo suas taxas de juros de maneira gradativa para que a população consuma cada vez mais (uma vez que o crédito está cada vez mais barato).

Observe o gráfico acima: ele representa o histórico da taxa de juros americana de 1955-2020. Perceba que desde 2008 ela vem caindo (com exceção de um curto período entre 2018 e 2019) e desde 2009 está em patamares próximos de zero.

Em economias como o Japão, a taxa de juros já é negativa (veja no gráfico abaixo). Isso mesmo. No Japão, se você comprar um título de dívida soberano com vencimento para daqui 10 anos, você receberá um valor menor do que o investimento inicial. Parece loucura, mas é apenas o mundo em que estamos vivendo hoje.

Por incrível que pareça, esse estímulo não causou o efeito esperado e muitas das grandes economias mundiais vêm apresentando um crescimento econômico bastante lento, apesar das taxas de juros atuais.

As possíveis explicações para este efeito não serão aqui abordadas, mas muito provavelmente têm a ver com os conceitos econômicos de inelasticidade, saciedade e ociosidade (este último mais forte no Brasil).

Apesar da manutenção artificial das taxas de juros em patamares tão baixos não ter surtido o efeito desejado na economia real, no mundo financeiro, está levando os investidores a tomar riscos cada vez maiores sem qualquer escrúpulo ou atenção aos detalhes, afinal, quem quer manter o seu dinheiro na renda fixa se a taxa de rendimento é perto de zero ou negativa? Faz mais sentido deixar dinheiro debaixo do colchão.

Com isso, os investidores migraram em peso para renda variável e causaram nos últimos anos um aumento substancial no preço de ações e outros ativos financeiros. Atualmente, vários índices globais estão próximos ou no maior patamar da história (inclusive o Ibovespa).

Outro efeito de baixas taxas de juros é o incentivo pela contração de mais dívidas por parte de empreendedores, afinal, a taxa de juros é basicamente inexistente e os incentivos para o embarque em aventuras cada vez mais arriscadas são facilitados.

Com isso, os bancos ficam cada vez mais agressivos e a competição no mundo bancário faz com que estas instituições concedam crédito com base em critérios cada vez mais brandos. Nesta fase, todo mundo ganha dinheiro. É uma farra.

A fase que estamos agora vivendo talvez represente a fase de "Greed", como disposta no gráfico acima. Tudo caminha às mil maravilhas até que um evento inesperado afete a farra e cause um choque na economia.

 

A bolha de 2007 e os Quantitative Easing (QE) 1, 2, 3 e 4

Foi o que aconteceu em 2007-2008 nos EUA. O crédito barato e fácil a pessoas com risco elevado de calote causou um boom no mercado imobiliário americano, que acabou aumentando a pressão inflacionária. Para conter a inflação, o banco central americano começou a aumentar a taxa de juros, fazendo com que aqueles devedores que haviam contraído dívidas enormes a patamares de juros perto de 0 agora tivessem de arcar com juros muito maiores do que seu potencial financeiro.

Tal fato causou um calote em cascata de diversos devedores e deu início à maior crise financeira vivida nos EUA desde a Grande Depressão em 1929.

Diversas casas foram postas à venda com o calote em massa dos contratos de financiamento imobiliário, derrubando o preço do mercado de imóveis de maneira severa nos EUA.

Quando os sinais de que viria uma crise apareceram de maneira mais incisiva, o FED começou a cortar as taxas de juros. No final de 2008, as taxas de juros da economia americana já estavam próximas de zero. Ao mesmo tempo, a economia americana estava em recessão e o desemprego em alta. Assim, o FED criou o programa de compra de ativos em larga escala, conhecido como o Quantitative Easing Program (QE). É o início da Bolha das Bolhas.

O balanço do FED passou de 900 bilhões de dólares para 2.1 trilhões de dólares após o fim da primeira rodada de QE.

A crise foi tão grave que diversos bancos tiveram de ser socorridos pelo FED, que acabou comprando 600 bilhões de dólares em dívidas bancárias que não seriam arcadas por tais instituições.

Em março de 2009, o FED tinha quase 1,75 trilhão de dólares em seu balanço e, em junho do ano seguinte, atingiu 2,1 trilhões de dólares, compostos por dívida bancária, MBSs e treasuries americanas.

Compras adicionais foram interrompidas enquanto a economia americana mostrava sinais de melhora, mas retomadas quando o banco central decidiu que a economia não estava crescendo com robustez. Com a pausa em junho, os ativos detidos começaram a naturalmente diminuir conforme os títulos foram sendo maturados e a projeção era que caíssem para 1,7 trilhão de dólares até 2012.

Em novembro de 2010, o FED anunciou uma segunda rodada de QE em larga escala - 600 bilhões de dólares em treasury securities até o final do segundo semestre de 2011. Essa segunda rodada ficou conhecida como “QE2”.

Uma terceira rodada de QE foi anunciada no dia 13 de setembro de 2012, o chamado QE3. O FED decidiu comprar novos 40 bilhões de dólares por mês em agency mortgage-backed securities, sem prazo específico para término. Além disso, o Federal Open Market Committee (FOMC) anunciou que iria manter as taxas de juros (federal funds rate) próxima de zero “pelo menos até 2015”. 

Após o fim da quarta rodada (QE4), anunciada logo após o QE3, o balanço do FED já beirava o montante de 4,5 trilhões de dólares.

Coronavírus e o Quantitative Easing (QE) infinito

Até mais recentemente, essa política de expansão do FED havia arrefecido. Inclusive, uma breve tentativa de enxugar o balanço foi iniciada em 2018, a qual rapidamente foi interrompida porque acabou derrubando as bolsas americanas.

 Após o surto do Coronavírus e os lockdowns impostos na economia mundial, o FED anunciou que irá reviver o programa de QE e que compraria pelo menos 500 bilhões de dólares de tresuries e 200 bilhões de dólares em MBSs.

O FED também anunciou que essas compras podem ser ILIMITADAS, bem como resgatará cidades, estados e empresas. Mas aí você pode estar se perguntando: d onde vem todo esse poderio econômico do FED? Como o FED tem a capacidade de aportar tanto dinheiro?

A resposta é simples: ele simplesmente o “imprime”. Isso mesmo, o FED pode criar dinheiro absolutamente do nada. Mágico, não é mesmo? Mas será que o FED sabe o que está fazendo? De acordo com Ben S. Bernanke, ex-presidente da instituição, não: “os banqueiros centrais estão no processo de aprender com a prática”.

Diante deste quadro, quais podem ser os efeitos destas taxas de juros absurdamente baixas e de tanto dinheiro injetado na economia? Será que jogar mais dinheiro no mercado hoje faz qualquer sentido do posto de vista econômico? Será que as fábricas que fecharam por conta da propagação do vírus irão reabrir após essa injeção? Será que o comércio que está tendo prejuízo por conta do fraco movimento irá magicamente voltar a ter lucro com sua atividade? Será que as cidades sairão da quarentena mesmo sem o vírus ter sido controlado por causa dessa política monetária? É óbvio que não.

Redução de juros e injeção de dinheiro na economia não combate um vírus. É óbvio que a única intenção do FED é tentar manter o nível dos mercados elevados. 

Mas a que custo no longo prazo?

 

Conclusão

Além de outros fatos notoriamente nocivos à economia, a prática do FED pode causar um sério problema de inflação estrutural. Atualmente, vemos níveis inflacionários como não vistos há décadas, inclusive no Brasil.

A criação de dinheiro muito acima do PIB é um problema e se mostrou a ruína de diversos países que não conseguem controlar sua economia, já que se sabe que a inflação é causada principalmente pelo aumento da quantidade de dinheiro em circulação na economia, exatamente o que o FED está fazendo.

Ou seja, é possível que o FED esteja criando A Bolha das Bolhas e dando azo a uma crise financeira sem precedentes históricos. Depois de 12 anos queimando munição, é possível que os bancos centrais mundiais -principalmente o FED - estourem esta bolha e causem uma crise de confiança absurda no nosso sistema monetária atual.

Porém, a única coisa que nos resta agora é sentar e observar os próximos passos dos bancos centrais mundiais. E que fique claro: o Coronavírus não é a causa da crise, ele pode ser apenas o alfinete que irá estourar A Bolha.

Os fundamentos da crise estão sendo plantados ao longo dos anos. Esses são apenas os resultados de anos de expansão artificial de crédito e déficits fiscais absurdos.

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